Enxaqueca com Aura: Sintomas, Causas e Tratamento
O que é a enxaqueca com aura?
A enxaqueca com aura — classificada pela International Headache Society (ICHD-3) sob o código 1.2 — é um subtipo de enxaqueca caracterizado pela presença de sintomas neurológicos transitórios e reversíveis que precedem ou acompanham a cefaleia. Esses sintomas, coletivamente chamados de "aura", resultam de alterações na atividade elétrica e no fluxo sanguíneo do córtex cerebral.
Aproximadamente 25 a 30% das pessoas com enxaqueca têm o subtipo com aura. É mais frequente em mulheres, embora essa predominância seja menos marcada do que na enxaqueca sem aura.
O mecanismo da aura: depressão cortical alastrante
A aura resulta de um fenômeno chamado depressão cortical alastrante (DCA) — uma onda lenta de despolarização neuronal que se propaga pelo córtex, seguida de supressão da atividade elétrica. Essa onda avança a uma velocidade de 3 a 5 mm por minuto, o que explica a característica progressiva dos sintomas.
À medida que a DCA percorre o córtex visual occipital, surgem os fenômenos visuais positivos (flashes, zigue-zague) seguidos de área escotomada (perda de visão). Quando atinge o córtex somatossensorial, produz dormência e formigamento; no córtex motor ou nas áreas da linguagem, pode causar fraqueza ou dificuldade de fala.
Sintomas da aura: como reconhecer
Os sintomas da aura têm três características essenciais que os distinguem de outras causas neurológicas:
- Início gradual: os sintomas se desenvolvem progressivamente em 5 a 20 minutos (não subitamente, como no AVC)
- Duração limitada: cada sintoma dura entre 5 e 60 minutos
- Reversibilidade completa: desaparecem sem deixar sequelas
Aura visual (mais comum — 90% dos casos)
A aura visual é a mais frequente e pode incluir:
- Escotoma cintilante: área cega no campo visual rodeada por contornos luminosos em zigue-zague (fenômeno em "fortaleza")
- Fotopsia: flashes de luz, pontos luminosos ou faíscas
- Hemianopsia: perda de metade do campo visual
- Teicópsia: linhas angulares luminosas em arco que se expandem progressivamente
Aura sensitiva
O segundo tipo mais comum. Manifesta-se como dormência ou formigamento (parestesias) que tipicamente começa nas extremidades dos dedos e se propaga pelo braço até o rosto — o chamado "marcha sensitiva" que dura 10 a 20 minutos.
Aura disfásica
Dificuldade para encontrar palavras (anomia), para falar (afasia expressiva) ou para compreender a fala. Ocorre em cerca de 10 a 20% das auras e costuma acompanhar a aura sensitiva.
Aura motora (enxaqueca hemiplégica)
Fraqueza unilateral transitória. Este subtipo — a enxaqueca hemiplégica — é relativamente raro e pode ter base genética (formas familiares com mutações nos genes CACNA1A, ATP1A2, SCN1A). Requer investigação neurológica cuidadosa para excluir causas vasculares.
Aura sem cefaleia: a enxaqueca silenciosa
Em alguns pacientes — especialmente homens acima de 40 anos com histórico de enxaqueca com aura — os sintomas da aura ocorrem sem a dor de cabeça subsequente. Esse fenômeno, conhecido como aura típica sem cefaleia ou "enxaqueca silenciosa", pode gerar ansiedade por confundir-se com ataque isquêmico transitório (AIT).
A distinção é fundamental: os sintomas da aura são progressivos (desenvolvem-se em minutos), enquanto os do AIT costumam ser de início súbito. Em caso de dúvida — especialmente na primeira ocorrência ou em pacientes com fatores de risco vascular — a avaliação neurológica urgente é necessária.
Enxaqueca com aura e risco de AVC
Estudos epidemiológicos demonstram que a enxaqueca com aura está associada a um risco aproximadamente 2 vezes maior de AVC isquêmico em comparação com a população geral. Esse risco é maior em:
- Mulheres jovens que usam anticoncepcionais orais combinados (estrogênio + progestágeno)
- Tabagistas com enxaqueca com aura
- Pessoas com hipertensão arterial não controlada
A combinação de enxaqueca com aura + anticoncepcional oral + tabagismo aumenta o risco de AVC em até 34 vezes. Por isso, a contracepção sem estrogênio (progestínio isolado, DIU hormonal, preservativo) é preferida nesses casos.
Diagnóstico: critérios ICHD-3
O diagnóstico é clínico, baseado nos critérios da ICHD-3 (Classificação Internacional das Cefaleias, 3ª edição). Para a enxaqueca com aura típica, são necessários:
- Pelo menos 2 ataques preenchendo os critérios abaixo
- Um ou mais sintomas de aura reversíveis: visual, sensitivo, disfásico
- Pelo menos 2 das seguintes características:
- Pelo menos 1 sintoma se espalha gradualmente em ≥ 5 minutos
- Cada sintoma dura 5 a 60 minutos
- Pelo menos 1 sintoma é unilateral
- A aura é acompanhada ou seguida de cefaleia em até 60 minutos
Exames de imagem (RM de crânio) não são necessários para o diagnóstico de rotina, mas podem ser solicitados para excluir outras causas em apresentações atípicas, na primeira crise, ou quando há sinais de alerta ("red flags").
Tratamento da enxaqueca com aura
Tratamento agudo (abortar a crise)
Triptanos: são os medicamentos de escolha para a fase de dor. Devem ser tomados ao início da dor, não durante a aura — o uso durante a aura não aumenta a eficácia e há preocupação teórica com vasoconstrição cerebral, embora estudos não tenham demonstrado aumento de risco de AVC com uso correto.
Opções de triptanos disponíveis no Brasil: sumatriptano (oral, nasal, subcutâneo), rizatriptano, zolmitriptano, naratriptano, eletriptano.
Antagonistas de CGRP (ditanos e gepants): lasmiditan e ubrogepant são opções mais recentes sem efeito vasoconstritor, podendo ser usados durante a aura. Ainda têm disponibilidade limitada no Brasil.
Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs): naproxeno sódico e ibuprofeno são alternativas para crises leves a moderadas.
Tratamento preventivo (profilaxia)
Indicado quando as crises são frequentes (≥ 4 por mês), prolongadas ou incapacitantes. Opções:
- Betabloqueadores: propranolol, metoprolol (1ª linha)
- Topiramato: eficácia bem estabelecida, não usar em gestantes
- Valproato de sódio: eficaz, contraindicado na gestação
- Amitriptilina: especialmente útil quando há insônia associada
- Anticorpos anti-CGRP: erenumabe, fremanezumabe, galcanezumabe — alta eficácia, aplicação mensal ou trimestral, disponíveis no Brasil
- Toxina botulínica (Botox): aprovada para enxaqueca crônica (≥ 15 dias/mês de cefaleia)
Na prática clínica
Na minha prática, os pacientes com enxaqueca com aura frequentemente chegam ao consultório assustados, especialmente quando os sintomas visuais foram a primeira manifestação. Entender que esses fenômenos são transitórios, bem definidos e têm tratamento eficaz é o primeiro passo para retomar o controle da vida.
Quando procurar atendimento médico urgente
Embora a enxaqueca com aura seja benigna, alguns sinais exigem avaliação urgente:
- Primeira aura da vida, especialmente após os 40 anos
- Aura com duração superior a 60 minutos
- Sintomas motores (fraqueza), de fala grave ou confusão prolongada
- Aura sem cefaleia em quem nunca teve enxaqueca antes
- Início súbito dos sintomas (ao contrário do início gradual típico)
- Cefaleia muito diferente das crises habituais ("a pior dor de cabeça da vida")
Perguntas frequentes sobre enxaqueca com aura
O que é a aura da enxaqueca?
A aura é um conjunto de sintomas neurológicos transitórios que precedem ou acompanham a dor da enxaqueca. Os mais comuns são os visuais — como pontos cintilantes, linhas em zigue-zague ou perda parcial da visão — mas a aura também pode causar dormência, formigamento ou dificuldade de fala. Esses sintomas surgem gradualmente, duram de 5 a 60 minutos e desaparecem completamente.
Enxaqueca com aura é mais grave que sem aura?
Não necessariamente em termos de intensidade da dor, mas a enxaqueca com aura está associada a um risco ligeiramente aumentado de AVC isquêmico, especialmente em mulheres jovens que usam anticoncepcionais orais e fumam. Por isso, é importante informar ao médico sobre a presença de aura para ajustar as escolhas terapêuticas e avaliar os fatores de risco cardiovascular.
Posso tomar triptano durante a aura?
A recomendação geral é aguardar o início da dor para tomar o triptano. Tomá-lo durante a aura pode não aumentar a eficácia e há uma preocupação teórica com vasoconstrição. Alternativas como os gepants (ubrogepant) podem ser usadas durante a aura. Consulte seu neurologista para orientação individualizada.
Posso usar anticoncepcional se tenho enxaqueca com aura?
Anticoncepcionais combinados (estrogênio + progestágeno) são contraindicados na enxaqueca com aura pelo risco aumentado de AVC. Métodos sem estrogênio são preferidos: pílula de progestínio isolado ("minipílula"), DIU hormonal, implante subcutâneo ou preservativo. Discuta as opções com seu ginecologista e neurologista.
Filhos de pessoas com enxaqueca com aura têm maior risco?
Sim. A enxaqueca tem componente genético importante, com herdabilidade estimada em 50%. Filhos de um dos pais com enxaqueca têm 50% de risco; se ambos os pais têm enxaqueca, o risco sobe para 75%. Na enxaqueca hemiplégica familiar, a herança é autossômica dominante com genes identificados.
Referências científicas: International Headache Society. ICHD-3. Cephalalgia, 2018. | Kurth T et al. Migraine and risk of cardiovascular disease. BMJ, 2016. | Lipton RB, Bigal ME. Migraine: epidemiology, impact, and risk factors for progression. Headache, 2005. | Associação Brasileira de Cefaliatria (SBCe) — Diretrizes de Tratamento da Enxaqueca, 2022.
Aviso médico: Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e não substitui consulta médica. Para diagnóstico e tratamento, consulte um neurologista.