Cefaleia · 19 de outubro de 2024 · 14 min de leitura

Enxaqueca: Causas, Sintomas e Tratamento Avançado

Mulher com expressão de dor segurando a cabeça, representando crise de enxaqueca

O que é enxaqueca?

Enxaqueca é uma doença neurológica crônica caracterizada por episódios recorrentes de dor de cabeça moderada a intensa, geralmente pulsátil e unilateral, acompanhada de náusea, vômito e sensibilidade à luz e ao som. As crises duram de 4 a 72 horas e podem incapacitar completamente o paciente durante o episódio.

É a terceira doença mais prevalente do mundo e a segunda causa mais incapacitante, segundo a Organização Mundial da Saúde. No Brasil, estima-se que 15% da população — cerca de 32 milhões de pessoas — sofre de enxaqueca, sendo três vezes mais frequente em mulheres do que em homens.

Apesar de tão comum, a enxaqueca continua sendo subdiagnosticada e subtratada. Muitos pacientes passam anos tomando analgésicos comuns que, a longo prazo, podem piorar o quadro — fenômeno conhecido como cefaleia por uso excessivo de medicamento.

Tipos de enxaqueca

Enxaqueca sem aura

É a forma mais comum, responsável por cerca de 70 a 75% dos casos. A crise inicia diretamente com a fase dolorosa, sem sinais neurológicos prévios. A dor é tipicamente pulsátil, unilateral (embora possa ser bilateral), de intensidade moderada a grave, e piora com atividade física rotineira.

Enxaqueca com aura

Presente em 25 a 30% dos pacientes, a aura consiste em fenômenos neurológicos transitórios que precedem ou acompanham a dor por 5 a 60 minutos. Os tipos de aura incluem:

Enxaqueca crônica

Quando as crises ocorrem em 15 ou mais dias por mês durante pelo menos 3 meses (com características de enxaqueca em ao menos 8 dias), o diagnóstico muda de enxaqueca episódica para enxaqueca crônica. Afeta cerca de 2% da população e está frequentemente associada ao uso excessivo de analgésicos e a fatores agravantes como ansiedade, depressão e distúrbios do sono.

Enxaqueca menstrual

Ocorre em relação ao ciclo menstrual, tipicamente 2 dias antes ou 3 dias após o início da menstruação. É desencadeada pela queda brusca de estrogênio e tende a ser mais intensa, mais prolongada e menos responsiva a analgésicos comuns do que as crises fora do período menstrual.

As quatro fases da crise de enxaqueca

Uma crise completa de enxaqueca pode passar por quatro fases distintas — embora nem todos os pacientes experimentem todas elas.

1. Pródromo (horas a dias antes)

Até 60% dos pacientes apresentam sintomas precursores horas ou até dois dias antes da dor. Os mais comuns são: alterações de humor (irritabilidade, euforia), bostejo excessivo, sensibilidade à luz ou ao som, rigidez cervical, retenção de líquidos e desejo intenso por determinados alimentos.

Reconhecer o pródromo é valioso: tratar nessa fase precocemente pode abortar ou atenuar a crise.

2. Aura (5 a 60 minutos)

Fenômenos neurológicos focais totalmente reversíveis. O escotoma cintilante — uma forma de zigue-zague luminoso que começa pequeno e se expande lentamente — é o mais característico. Os sintomas surgem gradualmente (o que diferencia a aura de um AVC isquêmico transitório, que costuma ser abrupto).

3. Fase dolorosa (4 a 72 horas)

É a fase de dor propriamente dita. A dor é classicamente descrita como pulsátil, de um lado da cabeça, de intensidade moderada a grave, piorando com movimentos rotineiros (como subir escadas ou se abaixar). Náusea, vômito, fotofobia e fonofobia são os acompanhantes mais frequentes. O paciente tende a buscar local escuro e silencioso.

4. Pós-dromo ("ressaca da enxaqueca")

Após a dor ceder, muitos pacientes experimentam até 48 horas de fadiga intensa, dificuldade de concentração, sensibilidade residual ao movimento da cabeça, humor alterado e sensação de "esgotamento cerebral". É um período frequentemente subestimado, mas que contribui para a incapacidade total da doença.

Na minha prática clínica, observo que muitos pacientes chegam ao consultório sem conseguir identificar o início da crise. Quando ensinados a reconhecer os sinais de pródromo, passam a tratar mais cedo — e com resultados significativamente melhores.

Causas e gatilhos da enxaqueca

Base neurobiológica

A enxaqueca resulta de uma hiperexcitabilidade do sistema nervoso central, especialmente do córtex e das vias trigemino-vasculares. Durante uma crise, ocorre ativação do nervo trigêmeo, liberação de neuropeptídeos inflamatórios (principalmente o CGRP — peptídeo relacionado ao gene da calcitonina) e dilatação dos vasos meníngeos, gerando o sinal doloroso.

O componente genético é forte: estudos de gêmeos estimam herdabilidade de 40 a 65%. Filhos de pais com enxaqueca têm 50% de chance de desenvolver a doença.

Gatilhos mais comuns

Gatilhos não causam enxaqueca diretamente — eles reduzem o limiar de disparo em um cérebro já predisposto. Os mais frequentes são:

É importante manter um diário de crises para identificar os gatilhos individuais. A correlação entre gatilho e crise nem sempre é imediata — pode haver uma janela de 6 a 48 horas.

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico de enxaqueca é essencialmente clínico. Não existe exame de sangue, ressonância magnética ou tomografia que confirme a doença — esses exames servem para excluir outras causas de dor de cabeça, especialmente causas secundárias (tumores, hemorragias, meningites).

O neurologista utiliza os critérios diagnósticos da Classificação Internacional das Cefaleias (ICHD-3), publicada pela International Headache Society, que estabelece critérios objetivos e validados para cada tipo de enxaqueca.

Critérios para enxaqueca sem aura (resumo)

  1. Pelo menos 5 crises na vida
  2. Duração de 4 a 72 horas (sem tratamento)
  3. Pelo menos 2 das seguintes características: unilateral, pulsátil, intensidade moderada/grave, piora com atividade física
  4. Pelo menos 1 dos seguintes: náusea/vômito, fotofobia E fonofobia
  5. Não atribuída a outra condição

Quando exames de imagem são indicados

A ressonância magnética do crânio é indicada quando há sinais de alerta ("red flags") como: início súbito e explosivo ("a pior dor da vida"), mudança no padrão da dor habitual, dor progressiva ao longo de semanas, dor associada a febre, rigidez de nuca ou alterações neurológicas persistentes, início após os 50 anos.

Tratamentos disponíveis para enxaqueca

Tratamento da crise (abortivo)

O objetivo é interromper a crise o mais precocemente possível. As opções incluem:

Tratamento preventivo

Indicado quando as crises são frequentes (4 ou mais por mês), prolongadas, muito incapacitantes, ou quando o tratamento abortivo é insuficiente. O objetivo é reduzir em pelo menos 50% a frequência das crises.

Toxina botulínica tipo A (Botox) para enxaqueca crônica

Aprovada pela FDA e pela ANVISA para profilaxia de enxaqueca crônica (≥ 15 dias de cefaleia/mês), a toxina botulínica é aplicada em pontos específicos da cabeça, pescoço e ombros a cada 12 semanas. Atua bloqueando a liberação de neuropeptídeos das terminações trigeminais, interrompendo o ciclo de sensibilização central.

Os estudos PREEMPT demonstraram redução média de 8 a 9 dias de enxaqueca por mês, com benefício cumulativo ao longo dos ciclos de tratamento.

Prevenção e qualidade de vida

Higiene da enxaqueca

Além dos medicamentos, mudanças no estilo de vida são parte fundamental do tratamento:

  1. Regularidade do sono: acordar e deitar no mesmo horário todos os dias, incluindo fins de semana
  2. Hidratação adequada: mínimo de 2 litros de água por dia
  3. Refeições regulares: nunca pular refeições; manter intervalos de no máximo 4 horas
  4. Atividade física moderada e regular: 30 minutos de aeróbico, 3 a 5 vezes por semana — comprovadamente preventivo
  5. Gestão do estresse: técnicas de relaxamento, mindfulness, psicoterapia cognitivo-comportamental
  6. Controle da cafeína: até 2 xícaras por dia, em horários regulares; evitar uso como "remédio" para a crise
  7. Diário de crises: fundamental para identificar gatilhos individuais e monitorar resposta ao tratamento

Quando consultar um especialista em enxaqueca

Procure avaliação neurológica especializada se você:

O cefaliatria — neurologista com subespecialização em dores de cabeça — é o profissional mais habilitado para conduzir o diagnóstico diferencial e definir o tratamento mais adequado para cada paciente.


Perguntas Frequentes sobre Enxaqueca

Quais são os primeiros sintomas de uma crise de enxaqueca?
Os primeiros sintomas podem aparecer horas antes da dor (pródromo): bostejo excessivo, irritabilidade, sensibilidade à luz ou ao som, rigidez de nuca, vontade de comer doces. Em quem tem enxaqueca com aura, fenômenos visuais como pontos luminosos ou zigue-zague surgem 5 a 60 minutos antes da dor.
Enxaqueca tem cura?
A enxaqueca não tem cura definitiva, mas tem excelente controle com tratamento adequado. Muitos pacientes alcançam redução de 50% ou mais nas crises com preventivos modernos, especialmente os anticorpos monoclonais anti-CGRP. Alguns chegam à remissão prolongada. O importante é não se resignar à dor sem buscar tratamento especializado.
Enxaqueca com aura aumenta o risco de AVC?
Sim, enxaqueca com aura está associada a risco ligeiramente elevado de AVC isquêmico, especialmente em mulheres jovens que fumam e usam contraceptivos orais combinados. O risco absoluto permanece baixo, mas é importante discutir com seu neurologista sobre contracepção e outros fatores de risco cardiovascular.
Com que frequência devo tomar analgésico para enxaqueca?
O limite seguro é de no máximo 10 dias por mês para triptanos e analgésicos combinados, e 15 dias por mês para analgésicos simples (paracetamol, ibuprofeno). Ultrapassar esses limites cronicamente leva à cefaleia por uso excessivo de medicamento — um ciclo em que o próprio remédio passa a provocar dor.
Enxaqueca piora na gravidez?
Para a maioria das mulheres, as crises de enxaqueca melhoram no segundo e terceiro trimestre de gravidez, graças à estabilização dos níveis de estrogênio. No entanto, o primeiro trimestre pode ser desafiador. O manejo deve ser cuidadoso, pois muitos medicamentos preventivos e abortivos são contraindicados na gestação.
O que é o Botox para enxaqueca e para quem é indicado?
A toxina botulínica tipo A (Botox) para enxaqueca é aprovada para profilaxia de enxaqueca crônica — pacientes com 15 ou mais dias de cefaleia por mês. É aplicada em até 31 pontos na cabeça, pescoço e ombros a cada 12 semanas. Diferentes do Botox estético, as doses e os pontos de aplicação são específicos para tratamento neurológico.
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