Enxaqueca: Causas, Sintomas e Tratamento Avançado
Neste Artigo
O que é enxaqueca?
Enxaqueca é uma doença neurológica crônica caracterizada por episódios recorrentes de dor de cabeça moderada a intensa, geralmente pulsátil e unilateral, acompanhada de náusea, vômito e sensibilidade à luz e ao som. As crises duram de 4 a 72 horas e podem incapacitar completamente o paciente durante o episódio.
É a terceira doença mais prevalente do mundo e a segunda causa mais incapacitante, segundo a Organização Mundial da Saúde. No Brasil, estima-se que 15% da população — cerca de 32 milhões de pessoas — sofre de enxaqueca, sendo três vezes mais frequente em mulheres do que em homens.
Apesar de tão comum, a enxaqueca continua sendo subdiagnosticada e subtratada. Muitos pacientes passam anos tomando analgésicos comuns que, a longo prazo, podem piorar o quadro — fenômeno conhecido como cefaleia por uso excessivo de medicamento.
Tipos de enxaqueca
Enxaqueca sem aura
É a forma mais comum, responsável por cerca de 70 a 75% dos casos. A crise inicia diretamente com a fase dolorosa, sem sinais neurológicos prévios. A dor é tipicamente pulsátil, unilateral (embora possa ser bilateral), de intensidade moderada a grave, e piora com atividade física rotineira.
Enxaqueca com aura
Presente em 25 a 30% dos pacientes, a aura consiste em fenômenos neurológicos transitórios que precedem ou acompanham a dor por 5 a 60 minutos. Os tipos de aura incluem:
- Aura visual: fenômeno mais comum — pontos luminosos, zigue-zague (escotoma cintilante), manchas cegas ou distorções de imagem
- Aura sensitiva: formigamento ou dormência que se propaga tipicamente da mão em direção ao rosto
- Aura de linguagem: dificuldade para encontrar palavras ou articular frases (disfasia transitória)
- Aura motora: fraqueza unilateral — presente na enxaqueca hemiplégica, uma forma rara
Enxaqueca crônica
Quando as crises ocorrem em 15 ou mais dias por mês durante pelo menos 3 meses (com características de enxaqueca em ao menos 8 dias), o diagnóstico muda de enxaqueca episódica para enxaqueca crônica. Afeta cerca de 2% da população e está frequentemente associada ao uso excessivo de analgésicos e a fatores agravantes como ansiedade, depressão e distúrbios do sono.
Enxaqueca menstrual
Ocorre em relação ao ciclo menstrual, tipicamente 2 dias antes ou 3 dias após o início da menstruação. É desencadeada pela queda brusca de estrogênio e tende a ser mais intensa, mais prolongada e menos responsiva a analgésicos comuns do que as crises fora do período menstrual.
As quatro fases da crise de enxaqueca
Uma crise completa de enxaqueca pode passar por quatro fases distintas — embora nem todos os pacientes experimentem todas elas.
1. Pródromo (horas a dias antes)
Até 60% dos pacientes apresentam sintomas precursores horas ou até dois dias antes da dor. Os mais comuns são: alterações de humor (irritabilidade, euforia), bostejo excessivo, sensibilidade à luz ou ao som, rigidez cervical, retenção de líquidos e desejo intenso por determinados alimentos.
Reconhecer o pródromo é valioso: tratar nessa fase precocemente pode abortar ou atenuar a crise.
2. Aura (5 a 60 minutos)
Fenômenos neurológicos focais totalmente reversíveis. O escotoma cintilante — uma forma de zigue-zague luminoso que começa pequeno e se expande lentamente — é o mais característico. Os sintomas surgem gradualmente (o que diferencia a aura de um AVC isquêmico transitório, que costuma ser abrupto).
3. Fase dolorosa (4 a 72 horas)
É a fase de dor propriamente dita. A dor é classicamente descrita como pulsátil, de um lado da cabeça, de intensidade moderada a grave, piorando com movimentos rotineiros (como subir escadas ou se abaixar). Náusea, vômito, fotofobia e fonofobia são os acompanhantes mais frequentes. O paciente tende a buscar local escuro e silencioso.
4. Pós-dromo ("ressaca da enxaqueca")
Após a dor ceder, muitos pacientes experimentam até 48 horas de fadiga intensa, dificuldade de concentração, sensibilidade residual ao movimento da cabeça, humor alterado e sensação de "esgotamento cerebral". É um período frequentemente subestimado, mas que contribui para a incapacidade total da doença.
Na minha prática clínica, observo que muitos pacientes chegam ao consultório sem conseguir identificar o início da crise. Quando ensinados a reconhecer os sinais de pródromo, passam a tratar mais cedo — e com resultados significativamente melhores.
Causas e gatilhos da enxaqueca
Base neurobiológica
A enxaqueca resulta de uma hiperexcitabilidade do sistema nervoso central, especialmente do córtex e das vias trigemino-vasculares. Durante uma crise, ocorre ativação do nervo trigêmeo, liberação de neuropeptídeos inflamatórios (principalmente o CGRP — peptídeo relacionado ao gene da calcitonina) e dilatação dos vasos meníngeos, gerando o sinal doloroso.
O componente genético é forte: estudos de gêmeos estimam herdabilidade de 40 a 65%. Filhos de pais com enxaqueca têm 50% de chance de desenvolver a doença.
Gatilhos mais comuns
Gatilhos não causam enxaqueca diretamente — eles reduzem o limiar de disparo em um cérebro já predisposto. Os mais frequentes são:
- Privação ou excesso de sono — ambos precipitam crises
- Jejum prolongado — quedas de glicemia ativam o sistema trigeminal
- Estresse e liberação pós-estresse — a "enxaqueca do fim de semana" é clássica
- Flutuações hormonais — especialmente queda de estrogênio no ciclo menstrual
- Desidratação — beber pouca água é um gatilho subestimado
- Luz intensa ou telas — luz estroboscópica e luz azul
- Odores fortes — perfumes, produtos de limpeza
- Álcool — especialmente vinho tinto e cerveja
- Alterações climáticas — mudanças de pressão atmosférica
- Alimentos específicos — queijo curado, embutidos, glutamato monossódico (o papel do chocolate é controverso)
É importante manter um diário de crises para identificar os gatilhos individuais. A correlação entre gatilho e crise nem sempre é imediata — pode haver uma janela de 6 a 48 horas.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico de enxaqueca é essencialmente clínico. Não existe exame de sangue, ressonância magnética ou tomografia que confirme a doença — esses exames servem para excluir outras causas de dor de cabeça, especialmente causas secundárias (tumores, hemorragias, meningites).
O neurologista utiliza os critérios diagnósticos da Classificação Internacional das Cefaleias (ICHD-3), publicada pela International Headache Society, que estabelece critérios objetivos e validados para cada tipo de enxaqueca.
Critérios para enxaqueca sem aura (resumo)
- Pelo menos 5 crises na vida
- Duração de 4 a 72 horas (sem tratamento)
- Pelo menos 2 das seguintes características: unilateral, pulsátil, intensidade moderada/grave, piora com atividade física
- Pelo menos 1 dos seguintes: náusea/vômito, fotofobia E fonofobia
- Não atribuída a outra condição
Quando exames de imagem são indicados
A ressonância magnética do crânio é indicada quando há sinais de alerta ("red flags") como: início súbito e explosivo ("a pior dor da vida"), mudança no padrão da dor habitual, dor progressiva ao longo de semanas, dor associada a febre, rigidez de nuca ou alterações neurológicas persistentes, início após os 50 anos.
Tratamentos disponíveis para enxaqueca
Tratamento da crise (abortivo)
O objetivo é interromper a crise o mais precocemente possível. As opções incluem:
- Analgésicos e AINEs: primeira linha para crises leves a moderadas. Paracetamol, ibuprofeno e aspirina são as opções mais comuns. Devem ser usados no início da crise e com uso limitado (máximo 2 a 3 vezes por semana) para evitar cefaleia por uso excessivo.
- Triptanos: a classe mais eficaz para enxaqueca moderada a grave. Atuam diretamente no receptor de serotonina (5-HT1B/1D), revertendo a ativação trigeminal. Sumatriptano, zolmitriptano e rizatriptano são os mais usados. Contraindicados em cardiopatas e em enxaqueca com aura de tronco cerebral.
- Gepantes (anti-CGRP agudos): nova classe de medicamentos que bloqueiam o receptor de CGRP. Ubrogepante e rimegepante são opções para pacientes que não respondem ou não podem usar triptanos.
- Ditan (lasmiditan): agonista seletivo de 5-HT1F, sem efeito vasoconstritor — opção para pacientes com risco cardiovascular.
- Antieméticos: metoclopramida e domperidona, além de controlar náusea, potencializam a absorção dos analgésicos.
Tratamento preventivo
Indicado quando as crises são frequentes (4 ou mais por mês), prolongadas, muito incapacitantes, ou quando o tratamento abortivo é insuficiente. O objetivo é reduzir em pelo menos 50% a frequência das crises.
- Propranolol, metoprolol (betabloqueadores): primeira linha, especialmente quando há ansiedade ou hipertensão associada
- Topiramato, ácido valproico (antiepilépticos): eficazes e amplamente usados; topiramato tem evidência robusta
- Amitriptilina, nortriptilina (antidepressivos tricíclicos): especialmente indicados quando há comorbidade com depressão ou insônia
- Candesartana, lisinopril (anti-hipertensivos): boa opção para pacientes com hipertensão
- Anticorpos monoclonais anti-CGRP: a revolução mais importante no tratamento preventivo da enxaqueca nas últimas décadas. Erenumabe, fremanezumabe e galcanezumabe são administrados em injeção mensal ou trimestral e apresentam resposta em até 50 a 60% dos pacientes, com perfil de segurança excelente.
Toxina botulínica tipo A (Botox) para enxaqueca crônica
Aprovada pela FDA e pela ANVISA para profilaxia de enxaqueca crônica (≥ 15 dias de cefaleia/mês), a toxina botulínica é aplicada em pontos específicos da cabeça, pescoço e ombros a cada 12 semanas. Atua bloqueando a liberação de neuropeptídeos das terminações trigeminais, interrompendo o ciclo de sensibilização central.
Os estudos PREEMPT demonstraram redução média de 8 a 9 dias de enxaqueca por mês, com benefício cumulativo ao longo dos ciclos de tratamento.
Prevenção e qualidade de vida
Higiene da enxaqueca
Além dos medicamentos, mudanças no estilo de vida são parte fundamental do tratamento:
- Regularidade do sono: acordar e deitar no mesmo horário todos os dias, incluindo fins de semana
- Hidratação adequada: mínimo de 2 litros de água por dia
- Refeições regulares: nunca pular refeições; manter intervalos de no máximo 4 horas
- Atividade física moderada e regular: 30 minutos de aeróbico, 3 a 5 vezes por semana — comprovadamente preventivo
- Gestão do estresse: técnicas de relaxamento, mindfulness, psicoterapia cognitivo-comportamental
- Controle da cafeína: até 2 xícaras por dia, em horários regulares; evitar uso como "remédio" para a crise
- Diário de crises: fundamental para identificar gatilhos individuais e monitorar resposta ao tratamento
Quando consultar um especialista em enxaqueca
Procure avaliação neurológica especializada se você:
- Tem 4 ou mais dias de dor de cabeça por mês
- Usa analgésicos mais de 2 vezes por semana para controlar as crises
- Apresenta crises que incapacitam por mais de 1 dia
- Tem dores de cabeça que mudaram de padrão recentemente
- Apresenta aura com fraqueza, fala prejudicada ou confusão mental
- Não encontrou alívio com os tratamentos já tentados
O cefaliatria — neurologista com subespecialização em dores de cabeça — é o profissional mais habilitado para conduzir o diagnóstico diferencial e definir o tratamento mais adequado para cada paciente.