Epilepsia: O que é, Tipos de Crise, Diagnóstico e Tratamentos
Neste Artigo
A epilepsia é uma das doenças neurológicas mais comuns do mundo — e uma das mais cercadas de estigma e desinformação. Ocorre quando grupos de neurônios no cérebro geram descargas elétricas anormais e repetitivas, causando crises que podem se manifestar de formas muito diversas: de breves "desligamentos" de segundos a convulsões generalizadas.
No Brasil, estima-se que 4 milhões de pessoas vivam com epilepsia. Apesar disso, com tratamento correto, até 70% dos pacientes alcançam controle completo das crises e levam uma vida completamente normal.
O que é epilepsia?
A epilepsia é uma doença neurológica crônica caracterizada pela predisposição do cérebro a gerar crises epilépticas recorrentes. A definição clínica da Liga Internacional Contra a Epilepsia (ILAE) estabelece que o diagnóstico requer:
- Duas ou mais crises não provocadas com intervalo superior a 24 horas, ou
- Uma crise não provocada com risco de recorrência superior a 60% nos próximos 10 anos, ou
- Diagnóstico de síndrome epiléptica específica
É importante distinguir epilepsia de crises situacionais — convulsões precipitadas por febre (principalmente em crianças), privação de sono extrema, álcool, hipoglicemia ou alterações eletrolíticas. Essas crises não configuram epilepsia quando a causa é identificável e reversível.
Na minha prática, percebo que o diagnóstico de epilepsia frequentemente gera um impacto emocional intenso. Mas quando explico que a maioria dos pacientes com epilepsia bem tratada dirige, trabalha, viaja e vive com total independência, o olhar muda completamente.
Tipos de crise epiléptica
A classificação das crises epilépticas foi atualizada pela ILAE em 2017 e divide as crises em dois grandes grupos conforme a origem no cérebro:
Crises focais (parciais)
Originam-se em uma região específica do cérebro (o "foco epiléptico"). Podem se apresentar de formas muito variadas, dependendo de qual área do córtex é afetada:
- Crises focais conscientes: o paciente permanece consciente e pode descrever o que sente — movimentos involuntários de um membro, sensações estranhas, fenômenos visuais ou auditivos, déjà vu, sensação "de estômago"
- Crises focais com comprometimento da consciência: há alteração da percepção — o paciente "para", olha fixamente, pode realizar automatismos (movimentos sem propósito como esfregar as mãos, mastigar)
- Crises focais com evolução bilateral: a descarga começa focal e se espalha para todo o cérebro, resultando em convulsão generalizada
Crises generalizadas
Envolvem ambos os hemisférios cerebrais desde o início. Incluem:
- Tônico-clônica (a "convulsão clássica"): fase tônica de rigidez muscular seguida de fase clônica de movimentos rítmicos, com perda de consciência. Pode haver mordedura de língua, perda de urina e confusão pós-ictal
- Ausência: breve interrupção da consciência (5 a 30 segundos) com olhar fixo e parada de atividade — mais comum em crianças. O paciente retoma o que estava fazendo como se nada tivesse acontecido
- Mioclônica: abalos musculares súbitos e breves, geralmente bilaterais, que ocorrem tipicamente logo após acordar
- Atônica: perda súbita do tônus muscular causando queda — por isso chamada de "crise de queda"
- Tônica: rigidez muscular sustentada sem fase clônica subsequente
Causas da epilepsia
A ILAE classifica as epilepsias por sua etiologia, o que guia o tratamento:
- Genéticas: mutações em genes que codificam canais iônicos ou neurotransmissores. Inclui síndromes como epilepsia de ausência da infância, síndrome de Dravet e GEFS+
- Estruturais: lesão cerebral identificável — malformações corticais, esclerose hipocampal (causa mais comum de epilepsia focal refratária em adultos), sequelas de AVC, tumores, traumatismo craniano
- Infecciosas: neurocisticercose (parasitose por Taenia solium — causa importante no Brasil e América Latina), meningite, encefalite viral
- Metabólicas: distúrbios metabólicos hereditários, fenilcetonúria, doenças de depósito
- Imunológicas: encefalites autoimunes (anticorpos contra receptores NMDA, LGI1, CASPR2) — diagnóstico importante pois respondem a imunoterapia
- Causa desconhecida: em aproximadamente 50% dos casos, nenhuma causa é identificada com os exames disponíveis
Diagnóstico
O diagnóstico de epilepsia é fundamentalmente clínico, baseado na descrição detalhada das crises — pelo paciente e por testemunhas. A avaliação inclui:
- História clínica detalhada: início, duração, frequência e características das crises; fatores precipitantes; história familiar; desenvolvimento neurológico
- Eletroencefalograma (EEG): registra a atividade elétrica cerebral e pode mostrar padrões epileptiformes entre as crises. Um EEG normal não exclui epilepsia
- Ressonância magnética de crânio: protocolo específico para epilepsia, identifica causas estruturais (esclerose hipocampal, malformações, tumores, sequelas)
- Vídeo-EEG: monitoramento prolongado com câmera sincronizada — padrão-ouro para classificar o tipo de crise e localizar o foco epiléptico quando há indicação cirúrgica
- Exames laboratoriais: excluir causas tratáveis e metabólicas
- Testes genéticos: indicados em casos selecionados, especialmente epilepsias de início na infância
Tratamentos disponíveis
Medicamentos anticrises epilépticas (ACE)
São o pilar do tratamento. A escolha do medicamento depende do tipo de crise, síndrome epiléptica, idade, sexo, comorbidades e outros medicamentos em uso. Com o medicamento correto:
- ~70% dos pacientes ficam livres de crises
- ~20% têm controle parcial com redução significativa das crises
- ~10% têm epilepsia refratária (resistente a medicamentos)
Medicamentos mais utilizados:
- Levetiracetam (Keppra): amplo espectro, boa tolerabilidade, seguro na gravidez — primeira escolha em muitas situações
- Lamotrigina: eficaz para crises focais e generalizadas, boa opção para mulheres em idade fértil
- Carbamazepina, oxcarbazepina: primeira linha para epilepsias focais
- Ácido valproico: amplo espectro, altamente eficaz para epilepsias generalizadas — uso restrito em mulheres em idade fértil devido a teratogenicidade
- Lacosamida, brivaracetam, perampanel: medicamentos de nova geração para epilepsias refratárias
Cirurgia de epilepsia
Para pacientes com epilepsia focal refratária (que não responde a pelo menos dois medicamentos adequados), a cirurgia pode ser curativa. O procedimento remove ou desconecta o foco epiléptico, com taxa de controle de crises de 60 a 80% em casos bem selecionados. A avaliação pré-cirúrgica é complexa e realizada em centros especializados.
Estimulação do nervo vago (ENV)
Um dispositivo implantado no pescoço envia pulsos elétricos regulares ao nervo vago, modulando a excitabilidade cerebral. Indicado para epilepsias refratárias não cirúrgicas. Reduz a frequência de crises em cerca de 50% dos pacientes após 2 anos de uso.
Dieta cetogênica
Rica em gorduras e muito pobre em carboidratos, induz um estado metabólico de cetose que reduz a excitabilidade neuronal. Especialmente indicada em crianças com epilepsias refratárias e em síndromes específicas como o síndrome de Dravet e a síndrome de Lennox-Gastaut.
O que fazer durante uma crise convulsiva
Saber como agir pode salvar vidas. As orientações são:
- Mantenha a calma e acione ajuda se necessário
- Proteja a pessoa de lesões: afaste objetos perigosos, coloque algo macio sob a cabeça
- Posição de recuperação: vire a pessoa de lado para evitar aspiração de saliva ou vômito
- NÃO coloque nada na boca — a pessoa não engolirá a língua; isso é um mito perigoso
- NÃO tente conter os movimentos com força — pode causar lesões
- Cronometre a duração da crise — informação fundamental para o médico
- Fique com a pessoa até que ela se recupere completamente
Chame o SAMU (192) se:
- A crise durar mais de 5 minutos (status epilepticus — emergência médica)
- Ocorrerem duas crises sem recuperação completa entre elas
- A pessoa não recuperar a consciência em 5 a 10 minutos
- Houver dificuldade para respirar após a crise
- For a primeira crise da vida
- A crise ocorrer na água
Epilepsia e qualidade de vida
A maioria das pessoas com epilepsia leva uma vida completamente normal. Com controle adequado das crises:
- Podem trabalhar em praticamente todas as profissões
- Podem praticar esportes (com cuidados em atividades de alto risco)
- Podem dirigir (após período sem crises estabelecido por lei)
- Podem ter filhos com segurança (com planejamento adequado da medicação)
- Podem viajar normalmente
O maior inimigo da qualidade de vida não é a epilepsia em si — é o estigma que ainda persiste. Epilepsia não é doença mental, não é contagiosa, não impede uma vida plena.
Quando consultar um neurologista
Procure avaliação neurológica:
- Após qualquer episódio de crise epiléptica, mesmo que único
- Se as crises não estiverem controladas com o tratamento atual
- Se houver efeitos colaterais significativos da medicação
- Ao planejar gravidez (a medicação pode precisar ser ajustada)
- Se houver mudança no padrão das crises
- Para reavaliação periódica do diagnóstico e tratamento
Perguntas Frequentes sobre Epilepsia
Epilepsia tem cura?
Ter uma convulsão significa ter epilepsia?
Pessoa com epilepsia pode dirigir?
O que fazer durante uma crise convulsiva?
Epilepsia é hereditária?
Referências
- Liga Brasileira de Epilepsia (LBE) — lbe.org.br
- International League Against Epilepsy (ILAE) — Classificação operacional das crises epilépticas (2017)
- Academia Brasileira de Neurologia — Diretrizes para diagnóstico e tratamento da epilepsia
- Fisher RS, et al. — Operational classification of seizure types by the ILAE. Epilepsia, 2017