Neurologia · 21 de outubro de 2024 · 11 min de leitura

Epilepsia: O que é, Tipos de Crise, Diagnóstico e Tratamentos

Ilustração editorial representando o cérebro e atividade elétrica — simbolizando epilepsia

A epilepsia é uma das doenças neurológicas mais comuns do mundo — e uma das mais cercadas de estigma e desinformação. Ocorre quando grupos de neurônios no cérebro geram descargas elétricas anormais e repetitivas, causando crises que podem se manifestar de formas muito diversas: de breves "desligamentos" de segundos a convulsões generalizadas.

No Brasil, estima-se que 4 milhões de pessoas vivam com epilepsia. Apesar disso, com tratamento correto, até 70% dos pacientes alcançam controle completo das crises e levam uma vida completamente normal.

O que é epilepsia?

A epilepsia é uma doença neurológica crônica caracterizada pela predisposição do cérebro a gerar crises epilépticas recorrentes. A definição clínica da Liga Internacional Contra a Epilepsia (ILAE) estabelece que o diagnóstico requer:

É importante distinguir epilepsia de crises situacionais — convulsões precipitadas por febre (principalmente em crianças), privação de sono extrema, álcool, hipoglicemia ou alterações eletrolíticas. Essas crises não configuram epilepsia quando a causa é identificável e reversível.

Na minha prática, percebo que o diagnóstico de epilepsia frequentemente gera um impacto emocional intenso. Mas quando explico que a maioria dos pacientes com epilepsia bem tratada dirige, trabalha, viaja e vive com total independência, o olhar muda completamente.

Tipos de crise epiléptica

A classificação das crises epilépticas foi atualizada pela ILAE em 2017 e divide as crises em dois grandes grupos conforme a origem no cérebro:

Crises focais (parciais)

Originam-se em uma região específica do cérebro (o "foco epiléptico"). Podem se apresentar de formas muito variadas, dependendo de qual área do córtex é afetada:

Crises generalizadas

Envolvem ambos os hemisférios cerebrais desde o início. Incluem:

Causas da epilepsia

A ILAE classifica as epilepsias por sua etiologia, o que guia o tratamento:

Diagnóstico

O diagnóstico de epilepsia é fundamentalmente clínico, baseado na descrição detalhada das crises — pelo paciente e por testemunhas. A avaliação inclui:

Tratamentos disponíveis

Medicamentos anticrises epilépticas (ACE)

São o pilar do tratamento. A escolha do medicamento depende do tipo de crise, síndrome epiléptica, idade, sexo, comorbidades e outros medicamentos em uso. Com o medicamento correto:

Medicamentos mais utilizados:

Cirurgia de epilepsia

Para pacientes com epilepsia focal refratária (que não responde a pelo menos dois medicamentos adequados), a cirurgia pode ser curativa. O procedimento remove ou desconecta o foco epiléptico, com taxa de controle de crises de 60 a 80% em casos bem selecionados. A avaliação pré-cirúrgica é complexa e realizada em centros especializados.

Estimulação do nervo vago (ENV)

Um dispositivo implantado no pescoço envia pulsos elétricos regulares ao nervo vago, modulando a excitabilidade cerebral. Indicado para epilepsias refratárias não cirúrgicas. Reduz a frequência de crises em cerca de 50% dos pacientes após 2 anos de uso.

Dieta cetogênica

Rica em gorduras e muito pobre em carboidratos, induz um estado metabólico de cetose que reduz a excitabilidade neuronal. Especialmente indicada em crianças com epilepsias refratárias e em síndromes específicas como o síndrome de Dravet e a síndrome de Lennox-Gastaut.

O que fazer durante uma crise convulsiva

Saber como agir pode salvar vidas. As orientações são:

Chame o SAMU (192) se:

Epilepsia e qualidade de vida

A maioria das pessoas com epilepsia leva uma vida completamente normal. Com controle adequado das crises:

O maior inimigo da qualidade de vida não é a epilepsia em si — é o estigma que ainda persiste. Epilepsia não é doença mental, não é contagiosa, não impede uma vida plena.

Quando consultar um neurologista

Procure avaliação neurológica:


Perguntas Frequentes sobre Epilepsia

Epilepsia tem cura?
Alguns tipos de epilepsia podem entrar em remissão completa com tratamento. Após 2 a 5 anos sem crises, pode-se considerar a retirada gradual da medicação sob supervisão neurológica. Outros tipos requerem tratamento contínuo, mas com excelente qualidade de vida quando bem controlados. Para epilepsias focais com lesão identificável, a cirurgia pode ser curativa.
Ter uma convulsão significa ter epilepsia?
Não necessariamente. Uma crise isolada não define epilepsia. O diagnóstico requer duas ou mais crises não provocadas com intervalo superior a 24 horas, ou uma crise com alto risco de recorrência. Febre alta, uso de substâncias e alterações metabólicas podem causar crises isoladas sem que haja epilepsia — mas toda primeira crise deve ser avaliada por neurologista.
Pessoa com epilepsia pode dirigir?
Sim, desde que esteja sem crises pelo período determinado pela legislação e com laudo neurológico favorável. No Brasil, a Resolução CONTRAN nº 805/2020 estabelece as condições para obtenção ou renovação da CNH. Converse com seu neurologista sobre sua situação específica.
O que fazer durante uma crise convulsiva?
Proteja a pessoa de lesões, coloque-a de lado, NÃO coloque nada na boca, NÃO tente segurá-la. Cronometre a duração. Chame o SAMU (192) se a crise durar mais de 5 minutos, se houver duas crises sem recuperação completa entre elas, ou se a pessoa não recuperar a consciência em poucos minutos.
Epilepsia é hereditária?
Existe componente genético em muitos tipos de epilepsia, mas ter epilepsia não significa que os filhos terão. O risco é levemente aumentado quando há histórico familiar, mas a maioria das pessoas com epilepsia não tem familiares afetados. Formas genéticas específicas podem ter padrão hereditário definido — o neurologista pode orientar sobre aconselhamento genético quando indicado.

Referências

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